“Aspiro a que as sociedades voltem a ser governadas pelas pessoas e não pelos algoritmos.”
— Juan Carlos Blanco, jornalista e autor de La tiranía de las naciones pantalla
Na sua recente entrevista ao El País, Juan Carlos Blanco alerta sobre a crescente influência dos algoritmos nas nossas vidas: desde as notícias que lemos até aos produtos que compramos online, “os sistemas automatizados priorizam o engagement e o benefício económico, muitas vezes em detrimento da verdade e da convivência democrática”. Embora Blanco analise este fenómeno numa perspetiva social e política, as suas reflexões têm implicações diretas para qualquer negócio digital, especialmente no âmbito do e-commerce, do design web e do marketing online.
De seguida, exploramos os perigos de deixar os algoritmos sem controlo humano na sua loja online, como identificar os principais riscos e que práticas qualquer empresa pode implementar para recuperar o leme da experiência do utilizador e da reputação da marca.

1. A ascensão dos algoritmos: ajuda ou jaula digital?
Desde os motores de recomendação até aos sistemas de publicidade programática, os algoritmos são concebidos para maximizar métricas (cliques, tempo na página, conversões). No fundo, perseguem um objetivo comercial: aumentar as receitas. No entanto, esta abordagem iterativa gera:
- Bolhas de conteúdo: os utilizadores só veem o que coincide com os seus padrões de comportamento anteriores, limitando a exposição a novidades ou produtos de nicho.
- Amplificação de erros: se um algoritmo identificar por engano um conteúdo ou produto como valioso, irá repeti-lo e difundi-lo, mesmo que não corresponda às expectativas.
- Desconexão emocional: a personalização extrema pode tornar-se invasiva ou mecânica, retirando o toque humano que gera confiança.
Blanco assinala que “os algoritmos acabam por construir realidades paralelas” e condicionam decisões individuais e coletivas. No e-commerce, isto traduz-se em carrinhos de compras com sugestões que não respondem realmente às necessidades, pop-ups insistentes que desesperam o utilizador e uma experiência de marca desumanizada.
2. Riscos específicos para a sua loja online
2.1 Perda de diversidade no catálogo
Um bom algoritmo de recomendação impulsiona vendas a curto prazo, mas se mostrar sempre os mesmos produtos “mais vendidos”, perde a oportunidade de promover artigos novos ou sazonais. Os e-commerce que dependem exclusivamente destas recomendações correm o risco de ficar presos em tendências e perder frescura.
2.2 Conteúdos incorretos ou enganosos
Os sistemas de geração automática de descrições de produto podem alucinar (inventar características ou garantias inexistentes). Este fenómeno, chamado “hallucination”, produz fichas de produto com dados errados, que acabam depois em avaliações negativas e reclamações.
2.3 Saturação publicitária
A publicidade programática ajusta ofertas em tempo real. No entanto, uma má configuração pode fazer com que o seu anúncio persiga o utilizador durante dias em diferentes sites, criando a sensação de assédio em vez de um suave lembrete. Isto prejudica a imagem da marca e leva à “banner blindness”, em que o utilizador simplesmente ignora as suas mensagens.
2.4 Dependência tecnológica
Se a sua plataforma de e-commerce integrar recomendadores ou chatbots de terceiros sem validação, fica exposto a alterações nas suas políticas, aumentos de preço ou falhas de serviço. O seu negócio deixa de ser dono da sua própria experiência de utilizador.

3. Recuperar o controlo: princípios fundamentais
A. Supervisão humana ativa
Nenhum sistema automático deve funcionar sem revisões periódicas. Programe auditorias trimestrais de:
- Recomendações: Quais são os critérios?
- Descrições geradas: Correspondem a dados reais?
- Campanhas publicitárias: Não são intrusivas?
Estas auditorias permitem corrigir desvios antes de causarem danos à reputação.
B. Transparência com o cliente
Comunique aos seus utilizadores que utiliza inteligência artificial e explique-lhes como podem beneficiar dela. Uma simples mensagem como “Recomendações personalizadas com base nos seus interesses” gera confiança e ajuda a compreender melhor a lógica por trás do sistema.
C. Mistura de algoritmos e criatividade humana
Para lançar novos produtos ou coleções, combine dados de vendas com a intuição da sua equipa: faça seleções manuais de produtos em destaque, edite descrições geradas para lhes dar um tom próprio e crie conteúdo multimédia original (vídeos explicativos, guias interativos).
D. Diversificação de canais
Não concentre toda a interação num único canal algorítmico. Complemente a recomendação automática com:
- Newsletters segmentadas por perfis humanos.
- Redes sociais com curadoria de conteúdos.
- Blog corporativo onde a equipa partilha novidades, entrevistas e tutoriais.
Esta estratégia híbrida reforça a personalidade da sua marca.
4. Boas práticas tecnológicas: soluções concretas
- Controlo de versões de algoritmos
Guarde um histórico de configurações do seu motor de recomendação. Se uma alteração provocar queda nas vendas ou reclamações, pode revertê-la rapidamente. - Treino com dados limpos
Filtre as suas bases de dados para eliminar registos duplicados, transações anómalas ou produtos descontinuados antes de alimentar a IA. - Teste A/B regular
Compare a experiência 100 % algorítmica com versões híbridas (misturando seleções humanas) e meça métricas de conversão, tempo de sessão e satisfação do cliente. - Alertas de conteúdo sensível
Implemente sistemas que detetem “hallucinations” nas descrições: palavras como “garantido”, “certificado” ou “exclusivo”, se não corresponderem a dados verificados, devem ser revistas manualmente.

5. O valor humano como vantagem competitiva
Enquanto muitas lojas optam por automatizar até ao último processo, o fator humano continua a ser o elemento diferenciador. Os microinfluenciadores ou os embaixadores da marca (colaboradores, fundadores ou clientes fiéis) geram conteúdos autênticos que os algoritmos não conseguem replicar. Estes testemunhos, histórias e avaliações próximas ligam-se ao comprador de forma profunda.
Além disso, contar com uma equipa de apoio ao cliente real, capaz de empatizar e resolver dúvidas complexas, reforça a reputação e promove recomendações “boca a boca” que as máquinas não conseguem obter.
6. Como Consultoria EHERO acompanha a sua transformação
Na Consultoria EHERO, há anos que ajudamos negócios digitais a equilibrar a inovação tecnológica com a experiência humana.
O nosso objetivo não é demonizar os algoritmos, mas colocá-los no seu lugar: ferramentas ao serviço das decisões humanas, não atalhos sem controlo. Desta forma, protegerá a sua marca, fidelizará os seus clientes e manterá a capacidade de os surpreender com produtos e experiências singulares.

7. Reflexão final: governar com responsabilidade
O aviso de Juan Carlos Blanco interpela-nos a todos: os algoritmos são tão bons quanto a orientação humana que recebem. No e-commerce, a IA pode multiplicar vendas e eficiência, mas sem um enquadramento ético e supervisionado, pode resultar em experiências monótonas, desinformação e perda de confiança.
Recuperar o controlo significa:
- Colocar o cliente no centro, não a métrica.
- Exigir transparência aos sistemas que usamos.
- Investir na criatividade e no discernimento das pessoas.
Só assim manteremos viva a promessa de um comércio digital que combine o melhor da tecnologia com o melhor do humano.
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